Cassino da Pampulha de Oscar Niemeyer

As formas do Cassino da Pampulha, a fama internacional do modernismo e o patrocínio público para uma arquitetura de marca

No dia 10 de novembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas proclama o nascimento do Estado Novo (1937/1945), um regime autoritário e populista. No entanto, moderno. A construção de um Estado Nacional, ideologicamente e politicamente forte, impunha-se capaz de ser representado por uma arquitetura nova que refletisse a vontade de modernização do País.

Foi nesse contexto que nasceram os projetos de Oscar Niemeyer para o novo bairro da Pampulha, localizado a dez quilômetros de Belo Horizonte - Niemeyer teve a assistência de Joaquim Cardozo, engenheiro e poeta, e do paisagista Burle Marx.

 

Construído em um promontório e, por isso, avistado de qualquer ponto, o cassino se distingue pela capacidade de tirar o máximo proveito de seu local de implantação. Não se revela de imediato: é preciso percorrê-lo para apreendê-lo, com suas funções distribuídas de forma a que o usuário se mova dentro, fora e em todas as suas dimensões.

O projeto é uma montagem de três blocos distintos - dois paralelepípedos e um cilindro - conectados com virtuosismo: rampas, passagens e escadas são como esculturas e representam uma versão brasileira do modernismo, sem qualquer rigidez para se organizarem em formas livres e plásticas. Essa audácia formal autorizada pelo uso do concreto é valorizada - com luxo mas sem ostentação - com colunas e corrimãos cromados, revestimentos de mármore ou com espelhos e seus brise-soleil almofadados. E Niemeyer ainda incluiu algumas referências das tradições brasileiras revestindo o volume da cozinha com azulejos.

O conjunto da Pampulha e o cassino inicial serviram de suporte promocional ao homem político que era Kubitschek. Assim, a utilização da arquitetura como ferramenta de propaganda é própria de nossa época que vê multiplicar-se à vontade a exploração dos grandes nomes da arquitetura, como o local da empresa moveleira Vitra (Weil-am-Rhein, Alemanha) cujo conjunto de edifícios, assegurando a imagem de marca da empresa, foi realizado por um areópago de arquitetos, já célebres, como Tadao Ando, Frank Gehry, Nicolas Grimshaw, Zaha Hadid e Álvaro Siza.

Mas a estratégia da marca não diminui o talento de qualquer criador, e o patrocínio de Oscar Niemeyer por Kubitschek para a Pampulha e mais tarde para Brasília deram à arquitetura brasileira um status internacional no momento em que o movimento modernista vinha se difundindo. Não importa como o programa evoluiu em seguida: a força do complexo da Pampulha é a de ter permanecido no seu molho, e de ter criado uma nova identidade cultural, inspirando-se nos modos de vida e nas paisagens típicas dos trópicos brasileiros. Esta já vinha pressentindo o Tropicalismo, um movimento nascido nos anos de 1960. Criticado e admirado por sua liberdade formal, o conjunto da Pampulha, que representava então uma decisão de riscos, evidencia um dos aspectos fortes da cultura brasileira: um otimismo unificador onde tudo é sempre possível.


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